Crônica Amparense – A MARCENARIA DO ANTÔNIO GASPAR

          

      Crônica Amparense

                                                       Por:   Rômulo R. Reis

  Vendo minha filha pequena se debruçar na frágil porta de um móvel da sala, de pronto ralhei com a pobrezinha. Afinal a coitadinha não tem a mínima noção de que os móveis de hoje não passam de um amontoado de cola e serragem, formatados e pintados de forma bonitinha, mas que não se prestam absolutamente para nada de mais duradouro. Como tudo o mais feito neste mundo, dito moderno, têm prazo certo para acabar e se desmanchar por completo, para nós, escravos do deus mercado, comprarmos tudo novamente.

            Embora não me considere velho sou de um tempo onde as coisas eram feitas para durar. E os móveis também, por uma vida toda, séculos a fio, como o guarda roupas de minha tetravó que até hoje tenho no meu quarto amparense. E ao matutar sobre a qualidade dos móveis, de pronto me veio a feliz lembrança de um amparense muito querido, meu amigo Antônio Gaspar.

            Para os que ainda não sabem,  Santo Antônio do Amparo ainda tem e teve excelentes marceneiros. Sim, marceneiros ou artesãos versados na arte de trabalhar a madeira e transformá-la em móveis e outras utilidades. Antigamente tão preciosos utensílios de residência não vinham de uma fábrica qualquer e muito menos eram comprados nestas lojas que vendem de tudo em prestações a perder-se de vista.

            Criança pequena tive o privilégio em minha infância amparense de passar grande parte dela no espaço tempo que se constituía na “oficina do Gaspar” como assim chamávamos. Um lugar deslumbrante para qualquer criança com menos de 11 anos de idade, onde víamos a chegada de enormes caminhões carregados de madeira bruta, as quais depois de semanas serradas em possantes máquinas, cujo barulho até hoje me lembro com saudade, se transformavam em enormes guarda roupas, camas, mesas e tudo o mais. As mãos hábeis do Gaspar em companhia do querido Tio Lélis davam forma a móveis de qualidade insuperáveis, todos feitos de madeira maciça com toques inigualáveis de artesão. Certamente estes móveis ainda guarnecem muitas residências amparenses, como verdadeiras testemunhas de um tempo onde o trabalho do artesão era valorizado e nunca trocado por estas traquitanas de serragem e cola que hoje custam os olhos da cara.

            Ainda tenho presente na memória a imagem de Tio Lélis no torno esculpindo pé de mesas arredondados, simetricamente idênticos. Dali também saiam pequenas tacinhas imprescindíveis para os apreciadores de uma boa cana. Gaspar com o formão nas mãos dava formas incríveis a peças esculpidas inteiramente a mão. Em um tempo onde as crianças tinham muito mais liberdade,  nós tínhamos acesso a um grande baú de madeira lotados de ferramentas. Serrotes, martelos, formões e outras coisas que hoje colocariam os cabelos de qualquer mãe de pé eram ferramentas imprescindíveis para nós, crianças por volta dos dez anos de idade, fazermos nossos próprios brinquedos. De nossa imaginação saiam caminhões (que o Edvaldo fazia com extrema habilidade) como também pistolas, espingardas e metralhadoras de cabo de vassoura (sim, brincávamos com metralhadoras de cabo de vassoura e nem por isto nos tornamos assassinos ou psicopatas).

            Lembro-me com saudade dos amigos de infância. Elvécio, que tão cedo nos deixou e os demais, que hoje embora ainda os encontre, estão todos dispersos. Edvaldo, Edinho, Liliu, as meninas, me lembro do cheiro da broa de fubá feita na panela por Dona Lúcia que, em que pese a bagunça que todo aquele amontoado de moleques das ruas de cima e de baixo faziam na sua casa, nos tratava a todos com uma ternura de mãe.

            Aqueles que hoje passam pelas Ruas da Felicidade e Avenida Alberto Cambraia Neto na altura da Escola Newton Ferreira de Paiva talvez não se recordem de um enorme “buracão” e era assim que o chamávamos, onde ao fundo existia uma mina d´água que escorria até um enorme bueiro, do qual erámos terminantemente proibidos  sequer de chegar perto. Lá no alto a marcenaria, primeiro coberta de uma lona preta, anos depois de telha e alvenaria.

            A paisagem mudou por completo, o “buracão” não existe mais, mas velha oficina ainda está lá, no mesmo local onde sempre esteve. A plaina, o torno, a serra circular já não lançam ao ar aquele barulho estridente que de longe nos invadia os ouvidos. Mas o velho Gaspar segue firme, ainda tenho a alegria de vez por outra por lá passar e ter aquela boa e velha conversa, para além de ter a felicidade de abraçar Dona Lúcia e ver aquilo sorriso que os anos não roubaram. Os tempos mudam, as memórias ficam e principalmente aquelas mais felizes e caras de uma época que não volta mais. Afinal, os móveis hoje são de serragem e cola, feitos em máquinas e máquinas não têm memória.

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